Três anos após o sucesso estrondoso da primeira temporada, James Gunn trouxe de volta "Peacemaker" com mudanças significativas — começando pela icônica sequência de abertura que se tornou viral em 2022. Em entrevista exclusiva, o criador da série da DCU revela os motivos por trás das novas escolhas criativas e como a segunda temporada explora dimensões paralelas de maneira única no cenário atual de super-heróis.
Uma Nova Dança para Novos Tempos
A abertura original da primeira temporada, com a música "Do Ya Wanna Taste It" da banda norueguesa Wig Wam, se tornou um fenômeno cultural por si só. Mas Gunn sabia que precisava de uma abordagem diferente para a sequência que introduz a segunda temporada.
"Eu sabia que a dança tinha que mudar porque matamos todo mundo na Temporada 1", explicou Gunn ao TheWrap. "Depois de considerar várias opções, acabei escolhendo 'Oh Lord' do Foxy Shazam, que é literalmente minha banda favorita."
E não foi apenas uma questão de gosto pessoal. Gunn destaca que a letra da nova música captura perfeitamente o tom da nova temporada — assim como a escolha anterior representava os lados claro e escuro da primeira temporada.
Onde Estão os 11th Street Kids Agora?
Apesar de terem salvado o mundo da invasão alienígena do Projeto Butterfly, os membros do auto-intitulado "11th Street Kids" estão em estados bastante diferentes quando a segunda temporada começa.
Gunn sempre gostou de escrever personagens atingindo novos fundos do poço, e desta vez não foi diferente. Curiosamente, nem todos estão piores — pelo menos na perspectiva do criador.
"Harcourt está de longe a pior. Para o Peacemaker, houve pequenos ganhos — honestamente, matar o pai provavelmente foi bom para sua vida. Ele está mais autoconsciente, mais vulnerável. Adebayo também está melhor. Ela sabe quem é e tem sonhos."
Mas Harcourt, interpretada por Jennifer Holland, está em situação bem mais complicada: "Seu trabalho era tudo para ela. As únicas pessoas que importavam eram os soldados que caminhavam ao seu lado, e ela perdeu isso. Então ela está uma bagunça."
Multiverso ou Dimensão Paralela? A Abordagem Diferente de Gunn
Quando Peacemaker usa o portal dimensional descoberto por seu pai e encontra uma porta para outro universo — onde ele, seu irmão (ainda vivo) e seu pai (também vivo) trabalham juntos como uma equipe de heróis celebrados mundialmente —, os espectadores podem pensar que se trata de mais uma história de multiverso.
Mas Gunn é rápido em diferenciar sua abordagem: "Não é realmente um multiverso. É realmente uma outra dimensão que é paralela ao nosso próprio mundo — e é muito mais contemplativa."
Ele faz questão de distinguir sua criação do que outros estúdios têm feito: "Adoro 'Deadpool & Wolverine' e ver todas aquelas bilhões de permutações, mas isso não é o que isso é. Isso é mais literário. É mais como 'The Counterlife' de Philip Roth do que 'Deadpool & Wolverine'."
Para Gunn, a questão central é existencial: "Peacemaker é confrontado com a possibilidade de coisas que ele nunca teve. Ele está encarando a perda de coisas que nunca teve diretamente na cara, e vendo uma vida que outras pessoas têm."
O Peso das Escolhas e a Complexidade dos Personagens
Gunn sempre demonstrou talento especial para explorar as nuances psicológicas de personagens aparentemente simples. Em Peacemaker, isso se torna ainda mais evidente. A segunda temporada mergulha fundo nas consequências emocionais das escolhas feitas anteriormente — algo que raramente vemos em séries de super-heróis.
"As pessoas pensam que matar o pai seria libertador para o Peacemaker," reflete Gunn. "E em muitos aspectos foi. Mas também criou um vazio existencial que ele não sabe como preencher. Sem a figura opressora contra quem se rebelar, quem ele realmente é?"
Essa abordagem psicológica contrasta fortemente com o tratamento convencional que personagens como esse costumam receber. Em vez de simplesmente seguir para a próxima missão, a série permite que os personagens — e o público — processem o que aconteceu.
A Evolução da Dinâmica Entre os Personagens
O que mais surpreende na segunda temporada é como as relações entre os personagens se transformaram. Economos, antes principalmente cômico, ganha camadas inesperadas de profundidade. Adebayo continua sua jornada de autodescoberta, mas agora com mais confiança — embora ainda cometendo erros genuínos.
Gunn explica: "A beleza de trabalhar com esse elenco é que todos evoluíram como atores desde a primeira temporada. Eles entendem seus personagens de maneira mais profunda, então posso escrever cenas mais complexas sabendo que eles conseguirão entregar."
E a química entre John Cena e Danielle Brooks? Absolutamente eletrizante. Suas cenas juntos carregam um peso emocional que poucas produções do gênero conseguem alcançar. Há momentos de vulnerabilidade genuína que surgem organicamente da comédia — uma marca registrada do estilo de Gunn.
"Danielle trouxe algo especial para Adebayo que nem eu antecipei," admite Gunn. "Ela encontram nuances no personagem que transformaram completamente como eu escrevo para ela."
O Humor Como Ferramenta Dramática
O que separa Peacemaker de outras séries do gênero é como o humor nunca diminui o impacto dramático — na verdade, frequentemente o amplifica. Gunn domina a arte de fazer o público rir em um momento e ficar genuinamente comovido no seguinte.
"O humor vem da verdade dos personagens," explica Gunn. "Não são piadas inseridas artificialmente. São personagens reais reagindo a situações absurdas de maneiras autênticas. Às vezes você ri porque reconhece a humanidade naquela reação."
Essa abordagem é particularmente eficaz nas cenas que envolvem a dimensão paralela. A comédia surge do contraste entre o que poderia ter sido e o que realmente é — um dispositivo que poderia facilmente parecer forçado nas mãos erradas.
Mas Gunn navega esses momentos com uma sensibilidade notável. As cenas na realidade alternativa são engraçadas, sim, mas também profundamente tristes. Você ri do absurdo da situação enquanto sente a dor do personagem principal — uma combinação rara que poucos criadores conseguem equilibrar.
A Representação da Masculinidade Frágil
Um dos aspectos mais interessantes da segunda temporada é como continua a explorar a masculinidade tóxica — tema que permeou a primeira temporada — mas de ângulos completamente novos.
Na dimensão paralela, vemos uma versão do pai de Peacemaker que é tudo que o original fingia ser: respeitado, admirado, genuinamente heroico. E isso cria uma crise existencial ainda mais profunda para o protagonista.
"É fácil odiar um monstro," reflete Gunn. "Mas e se o monstro pudesse ter sido um herói? E se a única coisa que separa o monstro do herói são as escolhas que fizeram? Essa é uma pergunta muito mais desconfortável."
A série nunca cai na armadilha de simplificar essas questões complexas. Em vez de oferecer respostas fáceis, força tanto os personagens quanto o público a confrontar nuances desconfortáveis sobre natureza versus criação, redenção versus responsabilidade.
O Futuro da DCU e o Lugar de Peacemaker
Com a reestruturação da DCU sob a liderança de Gunn, muitos fãs se perguntam como Peacemaker se encaixa no universo expandido. A resposta, segundo o próprio criador, é orgânica mas não obrigatória.
"Peacemaker existe em seu próprio espaço," explica Gunn. "Ele pode se conectar com outros elementos da DCU quando fizer sentido narrativo, mas não está preso a isso. Cada história dita suas próprias necessidades."
Essa abordagem flexível permite que a série mantenha sua voz única enquanto ainda existe dentro de um universo compartilhado maior. É um equilíbrio delicado que poucos conseguiram alcançar — mas Gunn parece ter encontrado a fórmula certa.
O que torna Peacemaker tão especial é exatamente essa independência criativa. A série não tem medo de ser estranha, emocionalmente crua e genuinamente peculiar — qualidades que frequentemente se perdem em produções de grande orçamento presas a exigências de universo compartilhado.
E talvez seja essa liberdade criativa que permita a Gunn explorar temas tão complexos através da lente do humor e da ação. Sem a pressão de servir a um universo maior, cada escolha narrativa pode servir apenas à história que está sendo contada — e aos personagens que a vivem.
Com informações do: The Wrap