O trailer oficial de The Beauty, a nova série antológica de Ryan Murphy para o FX, chegou e promete uma mistura perturbadora de horror corporal e crítica social. Com Ashton Kutcher no centro da trama, a produção mergulha nas consequências aterrorizantes de uma droga que promete beleza instantânea e perfeita. A premissa, que parece saída de um pesadelo distópico, levanta questões incômodas sobre nossa obsessão coletiva pela aparência e os limites que estamos dispostos a cruzar para alcançá-la.

Uma Premissa que Cava Fundo no Inconsciente Coletivo

Baseada no conto de Don DeLillo, The Beauty nos apresenta a "A Corporação", uma misteriosa entidade por trás de uma revolucionária — e perigosíssima — superdroga. A substância, como Kutcher anuncia com um sorriso de marketing no trailer, garante que você se torne "perfeitamente bonito". E quem não gostaria disso, não é mesmo? Num mundo onde filtros de Instagram e procedimentos estéticos são normalizados, a promessa soa quase plausível. Mas é aí que o gênio de Murphy entra: ele pega esse desejo universal e o torce até revelar seu núcleo mais grotesco.

O trailer é rápido em mostrar que o preço dessa beleza não é monetário. As imagens sugerem transformações corporais horripilantes, uma espécie de efeito colateral monstruoso que lembra clássicos do body horror como A Mosca ou obras mais recentes como Annihilation. A série parece questionar: o que acontece quando a busca pela perfeição estética literalmente consome quem você é? É uma metáfora poderosa, e um tanto óbvia, mas que ganha novas camadas nas mãos de um contador de histórias tão visual quanto Murphy.

Ryan Murphy e a Arte da Sátira Social com Gosto Amargo

Não é a primeira vez que Ryan Murphy usa o horror para falar de questões sociais. Basta lembrar de American Horror Story ou Ratched. Mas em The Beauty, o alvo parece mais específico e contemporâneo. Vivemos na era da auto-otimização, onde cada aspecto da nossa existência — saúde, produtividade, aparência — é algo a ser hackeado e melhorado. A série coloca um espelho distorcido diante dessa mentalidade.

O elenco, que inclui nomes como Ella Purnell (Fallout) e Judith Light, sugere que exploraremos diferentes perspectivas sobre essa epidemia de beleza. Talvez vejamos a história daqueles que se entregam à droga, dos que a vendem e dos que tentam resistir à sua influência. A escolha de Ashton Kutcher, um ator cuja carreira sempre esteve ligada a uma certa imagem de "garoto bonito" de Hollywood, é particularmente interessante. Ele não é mais o jovem de That '70s Show; hoje, representa uma certa maturidade e, talvez, uma consciência das pressões da indústria. Sua performance como o charmoso e sinistro porta-voz da Corporação promete ser um dos grandes trunfos da série.

E aí está o verdadeiro horror, na minha opinião. Não são apenas as transformações físicas mostradas no trailer, mas a facilidade com que a sociedade no universo da série — e, por extensão, a nossa — abraça uma solução tão radical. Quantos de nós já consideramos um procedimento estético impensável há uma década, mas que hoje é normalizado? The Beauty parece amplificar essa lógica até seu absurdo final. A série chega em um momento cultural fascinante, onde discussões sobre padrões de beleza, envelhecimento natural e a indústria do wellness estão no centro do debate.

O Legado do Horror Corporal e uma Nova Roupagem

O body horror sempre foi um gênero eficaz para falar de ansiedades profundas — medo de doenças, de perda de controle, da fragilidade do próprio corpo. David Cronenberg é o mestre incontestável nisso. The Beauty atualiza essas angústias para uma era dominada pela biotecnologia e pela cultura da autoimagem digital. A droga da série não é um acidente de laboratório; é um produto deliberadamente projetado e comercializado. O vilão, portanto, não é a ciência descontrolada, mas o capitalismo e a vaidade humana.

O visual do trailer, com seus contrastes entre a opulência dos iates e festas e as imagens de decomposição e mutação, reforça essa dicotomia. A beleza superficial esconde uma podridão interior. É um tema antigo, mas que nunca perdeu a relevância. A grande questão que fica é: a série conseguirá sustentar essa premissa forte ao longo de uma temporada inteira? Antologias como essa vivem do impacto de suas ideias, e The Beauty certamente tem uma potente.

Para acompanhar os detalhes oficiais da produção, você pode visitar o artigo original no Deadline. Enquanto aguardamos a estreia, fica a reflexão perturbadora: em um mundo que valoriza tanto a capa, o que realmente estamos dispostos a sacrificar para ter a capa perfeita? As respostas, se é que existem, prometem ser tão complexas quanto os monstros que Ryan Murphy está prestes a nos apresentar.

E pensar que tudo começou com um conto de Don DeLillo, né? O autor, conhecido por dissecar a psique americana e seus excessos, parece ter fornecido o terreno fértil perfeito para Murphy cavoucar. A ideia de uma substância que oferece beleza perfeita não é apenas ficção científica barata; é uma extensão lógica, ainda que aterrorizante, de um mercado que já vende cremes com "tecnologia de células-tronco" e suplementos com promessas milagrosas. A diferença é que, na série, o milagre vem com um preço literalmente visível, estampado na carne.

Aliás, você já parou para pensar como a indústria da beleza evoluiu nas últimas duas décadas? Não estou falando apenas de novas cores de batom. Falo da medicalização da estética, da normalização de intervenções que antes eram tabu. O que era exclusivo de celebridades e milionários agora está a um clique e um parcelamento sem juros de distância para muita gente. The Beauty pega essa tendência e a acelera até o ponto de ruptura. A "Corporação" de Kutcher é, no fundo, apenas uma versão mais honesta — e por isso mais assustadora — das empresas que nos vendem a ideia de que somos projetos inacabados.

Ella Purnell em uma cena tensa de The Beauty

O Elenco e as Camadas da Narrativa

Falando em Ella Purnell, sua presença no elenco é um sinal interessante. Vinda do sucesso de Fallout, onde interpretou uma personagem ingênua forçada a enfrentar um mundo brutal, ela traz uma certa bagagem de atuação que mistura vulnerabilidade com resiliência. Em The Beauty, ela provavelmente representará um dos lados dessa história complexa: será uma das "usuárias" da droga, uma cética ou alguém que tenta expor a verdade por trás da Corporação? Sua expressão no trailer, um misto de fascínio e horror, sugere que sua jornada será central para entendermos o custo humano por trás da promessa de perfeição.

E não podemos esquecer de Judith Light. A atriz veterana, com uma carreira que vai de comédias de situação a dramas intensos, adiciona um peso dramático inestimável. Em produções de Murphy, personagens mais velhos muitas vezes carregam os segredos mais sombrios ou a sabedoria mais ácida. Light pode ser a voz da razão em um mundo enlouquecido pela vaidade, ou talvez represente uma geração que vê, com descrença e medo, os jovens se sacrificarem no altar da aparência. A dinâmica entre essas gerações — aquela que cresceu com padrões de beleza rígidos, mas analógicos, e a que lida com a pressão digital constante — é um campo minado narrativo que a série tem tudo para explorar.

Mas e o Kutcher? Para mim, a escolha é brilhante justamente por ser contra-intuitiva. Longe dos papéis de comédia romântica que o consagraram, ele agora encarna a figura do capitalista charmoso, aquele vendedor que acredita piamente no produto que está vendendo, mesmo que esse produto destrua vidas. Há uma frieza em seu sorriso no trailer que é muito mais eficaz do que um vilão tradicionalmente malvado. Ele representa a banalidade do mal em sua forma moderna: embalada em marketing impecável, discurso de empoderamento e uma estética clean que esconde a sujeira.

O Horror na Era do Filtro e do Like

O que me deixa mais curioso, porém, é como a série vai traduzir o horror para uma linguagem contemporânea. Os monstros de Cronenberg eram orgânicos, viscosos, uma fusão perturbadora de máquina e carne. Em The Beauty, o horror pode ser mais sutil e, por isso, mais insidioso. Imagine uma beleza tão perfeita que é desumana. Rostos simétricos ao ponto da estranheza, corpos esculturais que não mostram marcas de vida, sorrisos idênticos. A uniformidade como pesadelo. Isso toca em uma ansiedade real: a perda da individualidade em um mundo que prega a autoexpressão, mas na prática homogeneiza os corpos através de tendências e procedimentos.

E tem a questão digital. Como uma série vai retratar a influência das redes sociais nessa obsessão? Será que veremos personagens checando seus "likes" após a transformação, comparando seus "antes e depois" em telas brilhantes? A distorção entre a imagem projetada e a realidade corporal já é, por si só, uma forma de horror do cotidiano para muitos. Amplificar isso através da lente de Murphy pode gerar algumas das cenas mais incômodas e memoráveis da série.

Afinal, o verdadeiro susto muitas vezes não vem do que é grotesco, mas do que é reconhecível. Quando a tela do seu celular vira um espelho que mostra não quem você é, mas quem você acha que deveria ser, a linha entre a realidade e a distopia já está bem borrada. The Beauty tem a chance de ser aquele tipo de série que você assiste e, depois, olha para o próprio reflexo com uma pontinha de desconforto. E talvez seja exatamente esse o seu maior trunfo: não nos assustar com monstros imaginários, mas nos fazer encarar os demônios muito reais que cultivamos dentro de nossos próprios desejos.

O formato de antologia, aliás, abre possibilidades infinitas. Cada temporada poderia explorar uma faceta diferente dessa premissa. Uma temporada no mundo da moda de alta-costura, outra dentro de uma clínica de estética clandestina, uma terceira focada nos cientistas que criaram a droga. O universo é rico o suficiente para se desdobrar em várias direções, desde que a equipe criativa mantenha o foco na crítica social afiada que parece ser o cerne do projeto. Ryan Murphy tem um histórico de começos espetaculares; o desafio sempre foi manter a coerência e a força narrativa até o fim. Resta saber se The Beauty conseguirá sustentar a promessa aterrorizante de seu primeiro trailer.

Enquanto a data de estreia não chega, fica aquele mal-estar produtivo. A sensação de que a série vai cutucar feridas que preferimos ignorar. Em um cenário onde a discussão sobre saúde mental e autoimagem nunca foi tão urgente, uma obra que coloca um espelho (ainda que distorcido) na nossa cara pode ser mais necessária do que confortável. E talvez seja essa a marca do bom horror: não nos deixar dormir direito, não por causa do susto momentâneo, mas pela reflexão persistente que ele provoca nas horas quietas do dia.

Com informações do: DEADLINE